O Quinze

100 Anos

Cem anos depois d'O Quinze, não se vê mais gente deixar suas casas no sertão para viajar ao Norte ou Sudeste atrás de sustento e trabalho. Ainda assim, a comparação entre os quinzes é inevitável na voz do sertanejo que pinça da memória qualquer história ouvida dos pais ou avós sobre aquele tempo.

O verbo do sertão em tempo de seca continua o mesmo de cem anos atrás: escapar. Da fome, da falta de políticas efetivas, da invisibilidade. Mas emerge de todas essas ausências um sertão-resistência que esta reportagem especial traz em lembranças, dores e sonhos.

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LEMBRANÇAS

O Quinze foi seco que morria tudo: gente, mato, bicho. Depois de muito tempo sem chover, o jeito era acreditar que o inverno ainda poderia começar em abril. Nada, só água findando e criação morrendo. Quando acabava milho e feijão, era hora de partir. Retirantes iam deixando pela beira das estradas familiares que não resistissem à fraqueza. O sofrimento era tanto que saiu de 1915 para ressignificar o sertão.

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"Do Quinze eu sei porque meu bisavô contava. Nós tamo completando cem anos dessa história. A fome era tão braba que comiam animal, burro, até gente tentaram comer. Só porque não deu certo. Quando botaram o sal, a carne desmanchou. Contam que um homem que tinha uma filha moça muito bonita foi obrigado a render ela pra comprar alimentação. A maior seca da minha vida foi 83. Quando o negócio apertava, a gente ia pro comércio e invadia pra trazer o de comer. Mas só dava pra dois dias, depois já tava com a mesma fome de novo. Nós ia atrás de emprego, mas num tinha. Aí se ajuntava os hômi tudim. Quando invadia o comércio, vinha emprego pra nós. E assim nós vivemo com esse sofrimento".

Domingues de Souza Feitosa, 67, consegue se manter atualmente vendendo o cheiro vende plantado no quintal de casa, na zona rural de Tamboril.

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"Naquela Seca do Quinze, meu pai tava com cinco anos, mas conta muita história que os pais dele contavam que aconteceu. Foi a maior seca que houve na história do nosso mundo, morreu muita gente. Nessa estrada aí tem muita cruz das pessoas que regressavam no mundo atrás de recurso e trabalho nesse tempo. Quando cansava um por aí, morria, porque já vinha morto de fome e de sede né? E aí, se esse ano for como tão agourando, uma seca cruel, rapaz, eu vou lhe dizer uma coisa: é no caminho de se acabar tudo porque água você sabe que é um líquido precioso e, sem ele, ninguém vive. Nem vive gente, nem bicho, nem nada. Pra gente que vive assim na luta do campo, é em primeiro lugar a terra, em segundo a água".

Sebastião Gomes de Souza, 67, agricultor aposentado, mora na localidade de Monte Alegre, em Tamboril.

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"Ouvi muito contarem história de Quinze. Eles diziam que comiam até couro. Torravam na panela e iam pilar pra tentar fazer um pirão. Era a mistura. Contavam isso lá pra trás. Era meu avô, meu pai. A finada minha mãe falava: "Hômi, a seca do Quinze foi a seca mais perigosa do mundo". Falavam demais. Mas graças a Deus de Quinze pra cá não alcancei muita coisa ruim não, a seca era mais boa. Não passei muita precisão não, porque os hômi do governo tinham coragem de dar comida a gente. Certo que o arroz era ruim e o feijão preto que botava na panela e ficava nadando. Pelejava pra cozinhar. Mas vinha o de comer. No Quinze não vinha nada não. Eu só conto mesmo o que me disseram, que era seca medonha".

Zé Favela, 78, mora em uma casa de taipa na localidade de Angicos, em Tauá, porque tem medo de casa de tijolo balançar e cair.

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